Lausamar Humberto é advogado e jornalista. De 2007 a 2015 foi professor de jornalismo na UEMG. Como advogado, atua na área cível e trabalhista. É também poeta, tendo publicado em 2015 seu primeiro livro: “O Que Resta”. Contato: lausamar@yahoo.com.br ou www.facebook.com/lausamar

Há poucos dias, enquanto esperava a vez em um salão de barbeiro, tive a oportunidade de presenciar um diálogo interessante. Dois senhores, por certo aposentados, começaram a comentar a atual situação política e econômica brasileira. Transcrevo de memória alguns trechos por tudo o que eles simbolizam da situação atual.

Quem iniciou a conversa foi um senhor magro, barba e cabelos brancos, de fala mansa e pausada, e que antes de qualquer resposta refletia alguns segundos, alisando o longo queixo. Vim a saber depois ser um militar aposentado. O outro senhor era mais expansivo, irrequieto, e falava firme defendendo suas ideias. Vamos ao diálogo:

“_ A crise tá brava. Falam que a inflação diminuiu, que os juros baixaram, que isso, que aquilo outro, e eu não vejo melhora. O Temer quer que os aposentados continuem pagando para a previdência mas ele mesmo o que fez foi se empanturrar na corrupção.

            _É uma pouca vergonha. Querem sacrifícios da gente, mas eles mesmos, só no bem bom. O Lula também está mais sujo que pau de galinheiro. A mulher dele ficou milionária vendendo Avon, os filhos são sócios da Friboi.

            _E agora tem essas estórias de conta em paraíso fiscal dos tucanos. Mais de trezentos milhões. E o Áecio, pedindo 2 milhões de propina pelo telefone.  Ainda por cima é amador. Será que ele não sabe que todo mundo no Brasil tá grampeado?

            _ É. Disso tudo uma coisa eu tô gostando. O Bolsonaro tá peitando todo mundo. Ele é meio maluco, mas tem coragem.

            _Ele é um irresponsável, isso sim. Quer ver o circo pegar fogo para ser eleito como o salvador da pátria. Já vi este filme. É tudo farinha do mesmo saco.

            Deixando de lado algumas besteiras ditas com convicção, como normalmente são ditas as grandes besteiras, o diálogo é sintomático do que anda pela cabeça da população. E tenho duas hipóteses, que não se excluem, para esta maneira de pensar.

Primeiro: neste bombardeio de informações atual e faltando para a imensa maioria dos brasileiros a formação adequada para decodificá-las, estas informações não se transformam em conhecimento ou são só parcialmente absorvidas. Isso permite conclusões errôneas , embaralhamento de conceitos e reputações e também boatos que viram fatos.

Segundo: os políticos estão de tal maneira desprestigiados e assumem comportamento (péssimo comportamento) tão parecido, que o povo não percebe nenhuma diferença. Nesta imagem projetada, mau-caratismo, corrupção, fisiologismo, apego ao poder, são características inerentes a todos.

Sendo qual for a hipótese correta ou admitindo-se uma junção das duas, o que resta aos nossos comandantes políticos é tentar reverter este quadro. Ou mudam este comportamento, com postura mais ética e republicana com a coisa pública, ou esta insatisfação e desrespeito pela classe política podem levar a um abalo das instituições democráticas. Com isso, perderemos todos. É o velho enigma da esfinge: decifra-me ou devoro-te.

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