O que leva o vento: um livro para confortar e dilacerar a alma

 

Ana Carolina de Araújo Silva[*]

Leonardo da Vinci escreveu que “os olhos são a janela da alma e o espelho do mundo”. Para quem ainda não conhece Lausamar Humberto pessoalmente, ler seu mais novo livro – “O que leva o vento” – é uma deleitante oportunidade. A poesia de Lausamar escancara sua alma e apresenta, por vezes de forma terna e singela, outras com uma objetividade dilacerante, o viés pelo qual o poeta enxerga o mundo.

Ana Carolina Araujo Silva foi professora e coordenadora do Curso de Comunicação da UEMG. Atualmente é professora na Universidade Federal do Paraná.

“Chegue”, o poema de abertura, mais que um simples convite à leitura, é uma isca intrigante para um mundo que o autor chama “estranho”, mas que o leitor encontrará extremamente rico de belas imagens, recordações emocionantes e de uma inteligência ímpar evidenciada em uma poesia que combina de forma brilhante delicadeza e frases desconcertantes.

Na apresentação do livro, Lausamar se descreve como um poeta do cotidiano. Para tanto, não se prende a rótulos e fórmulas. Seus poemas passeiam entre o ritmo melodioso de “Força”, o construtivismo de “A falta que faz” e a concisão de haikais como “Métrica”. Aliás, a métrica do autor são as ideias perspicazes disfarçadas na linguagem simples. As lembranças da infância, do interior mineiro, das conversas, dos amigos, das referências culturais dão a tônica a uma obra que muda de cara a cada nova leitura.

Há quem possa ver um Lausamar romântico nesse livro. O amor (sublime e lascivo) é o mote em “Urgência”, “Hotel” e “Servo”. Também encontramos um autor melancólico, em discussão constante com sua solidão e desapontamentos. A morte, tema denso, toma forma irônica em “Recomendações para depois da minha morte”, chegando a dilacerar em “Notícia”, “Póstumo” e “Último adeus”. Aos que anseiam por posições políticas, o poeta não decepciona e dispara críticas cortantes entremeadas por um bom senso que inspira a reflexão do cenário contemporâneo.

É um livro que inspira o que se pode chamar de leitura dialogada. Ler os poemas de Lausamar é como tecer um bate papo bem humorado com o autor, que nos conduz a temas variados, como em uma boa prosa mineira. Essa prosa, de início com o autor, envereda para um auto- diálogo, em que concordamos, discordamos, brigamos e nos apaixonamos pelos poemas. Perseguimos o “vaga-lume Tem Tem” até as nossas memórias de infância e sentimos saudade da casa, do cachimbo, da vó, da tia, do tio, do pai, do abraço…

“O que leva o vento” é um livro que incomoda, mas que também acalenta. É um golpe esmagador aplicado com almofada de pelúcia. É como o vento, que por vezes é tornado devastador e em outras, brisa refrescante. Ler essa obra de Lausamar é um grato prazer, tal como a jangada levada pelo vento.

 

[*] Ana Carolina é jornalista e professora na Universidade Federal do Paraná.

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