Professor, José Luiz de Paula e Silva é palestrante e escritor. É autor do volume de crônicas "E o tempo sorria". Docente na FAF-Faculdade Frutal. Conselheiro Fiscal do Sicoob Frutal. Colunista de jornais impressos e sites de notícias. Apresentou o quadro Travessia, na 102 FM de Frutal (MG). Atuou como secretário municipal de educação da cidade de Frutal (MG), do período de 2005 a 2016. Para entrar em contato, escreva para professorjoseluizdepaula@gmail.com

“Menino, corre! Vai lá na venda ajudar seu pai!

Assim era o chamado que ecoava até o fundo do quintal. Deixava o que estava fazendo, brincando com carrinhos feitos com sabugos, lavava as mãos e apressado ia atender os fregueses na venda de meu pai. De parafusos ao pão que o Jovito levava todo dia cedinho em sua perua surrada; de fumo de corda à vara de pescar; de pacotes de arroz à corda de sizal; de Leite de Rosas aos gibis da banquinha improvisada trazidos lá do Zé Colher (gibis que pegávamos escondido para ler debaixo dos pés de mexerica nos fundos de casa que fez despertar meu gosto pela leitura). Ali tinha quase de tudo. Meu pai tentava abastecer as necessidades da população local. Das doses de cachaça, das tacadas de sinuca, dos mantimentos vendidos, meu pai criou sua família. O empório ainda tinha uma máquina de sorvete em que os filhos homens aprenderam a arte de preparar gostosas massas geladas e picolés diferentes. Minha mãe, com a ajuda das irmãs tão unidas, ainda preparava saborosos bolos (com os quais arriscávamos fazer exóticos sanduíches com mortadela), enrolados de salsicha e outras delícias que somente aquelas mãos de fada sabiam arranjar, com receitas inventadas e guardadas na cabeça.

Seis filhos, colocados para ser alguém na vida. Dali, construímos as bases de nossas personalidades, construímos os pilares que sustentariam nossas vidas futuras, que lapidaram o caráter de cada um. Não se admitia outra coisa a não ser que tivéssemos dignidade, respeito pelas pessoas e muita responsabilidade. Os seis passaram pelos balcões da venda da esquina da praça. E, entre as idas e vindas da casa para a venda – que eram geminadas, aprendemos a ser gente melhor, convivendo com os sábios e os bêbados (alguns mais sábios que muitos sóbrios), aprendendo a fazer conta de cabeça, a pensar rápido, a dar valor a cada centavo e a cada pessoa que por ali passava.

A venda ainda existe. Meu pai, no alto de seus quase oitenta e dois anos, mantém vivo o que para nós é um templo. Diminuiu de tamanho, cedeu lugar a outros comércios com as divisões do prédio, mas é a certeza de vidas que ainda têm muita história para contar.     A venda mora dentro de nós e retorna nas saudades de ontem, nos encontros do hoje e nas incertezas do amanhã. Não vai acabar tão cedo.

É isso aí!

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