Lausamar Humberto é advogado e jornalista. De 2007 a 2015 foi professor de jornalismo na UEMG. Como advogado, atua na área cível e trabalhista. É também poeta, tendo publicado em 2015 seu primeiro livro: “O Que Resta”. Contato: lausamar@yahoo.com.br ou www.facebook.com/lausamar

Até o final do mês, na Casa da Cultura (Museu), estará em exibição a exposição Literatura nas quatro linhas – Futebol em Verso & Prosa, com textos de alguns dos principais escritores brasileiros sobre a maior paixão do brasileiro.

 

Não me lembro de quando comecei a gostar de futebol. Talvez porque nunca tenha começado. Gosto desde sempre. Gosto de literatura. Desde as primeiras linhas que li, ainda na cartilha Caminho Suave, passando pelos gibis, José Mauro de Vasconcelos, Monteiro Lobato, Quintana, Drummond, até chegar no Philip Roth.  E a união destas duas paixões nunca foi muito fácil.

É muito difícil escrever sobre futebol. Pela importância cultural que tem, por ser este patrimônio nacional, há pouca literatura sobre o futebol brasileiro. Sendo um esporte amado por tantos, por que não se escreve mais sobre ele? Arrisco uma teoria.

O futebol é amplo demais, é grande demais, é um universo em si, com todos os atos, as emoções, os conflitos, as tragédias e as glórias da condição humana. Escrever sobre o jogo em si, sobre os lances, os dribles, os gols, as vitórias, as derrotas, é como descrever um mundo. A narrativa sempre é pequena, insuficiente perante esta magnitude. A linguagem parece não dar conta de tudo que acontece em 90 minutos, entre quatro linhas.

Por esse motivo, os escritores vão pelas beiradas. Se poucos ousam escrever sobre o jogo em si, muitos vão falar sobre o entorno de uma partida. Sobre os torcedores, os jogadores, a galáxia humana que gravita em torno do jogo.

E é sobre este entorno que falam os mais de vinte textos da exposição Futebol em Verso & Prosa, em cartaz desde o dia 3 na Casa de Cultura e que lá permanece até o fim do mês.

São excelentes textos. Drummond, Clarice Lispector, Renato Pompeu, Fernando Sabino, Eduardo Galeano e tantas outras feras escrevem, do seu modo particular, sobre aspectos deste tema tão amplo. Drummond detém-se no drible; Clarice fala da angústia de ser botafoguense (uma angústia, em si), entender pouco de futebol, e ter filhos botafoguenses e flamenguistas; Fernando Sabino relembra a dor da derrota em 66, na Copa da Inglaterra, mais dolorida ainda porque representava o fim de uma era de heróis como Djalma Santos, Didi e Garrincha; Ferreira Gullar arrisca o desafio de narrar um gol, e o faz lindamente, com um poema que é uma joia.

Tive a honra de ter meu poema Finta escolhido para integrar também a seleção. Reproduzo-o abaixo. Não deixem de visitar a exposição. Reclamamos tanto que Frutal não oferece opções culturais. Quando surge uma chance como essa, temos de aproveitar. Não deixem de ir…

 

Finta

 

 

Era de meia,

saquinho de leite.

Era de plástico,

de capotão.

E era Sócrates,

e era Zico.

Era Cerezo,

era Falcão.

 

Jogando na rua,

pelas calçadas,

lugar impróprio

não tinha não.

Nem todo drible

era perfeito,

mas era craque

na imaginação.

 

Senhor do tempo

e do espaço.

Corria solto,

alegria sã.

A bola rolava

com os amigos.

Cada cantinho,

o Maracanã.

 

A bola vinha,

o corpo sabia.

Nem se pensava

e saía a finta.

E vinha o gol,

e veio a vida.

Mas a simbiose

bolamenino

nunca se finda.

 

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