Lausamar Humberto é advogado e jornalista. De 2007 a 2015 foi professor de jornalismo na UEMG. Como advogado, atua na área cível e trabalhista. É também poeta, tendo publicado em 2015 seu primeiro livro: “O Que Resta”. Contato: lausamar@yahoo.com.br ou www.facebook.com/lausamar

Crise de identidade

Tenho um sério problema com fisionomias. Esta dificuldade de me lembrar das pessoas já me colocou em algumas situações constrangedoras. É muito comum pessoas me cumprimentarem, conversarem comigo e eu não ter a menor ideia de quem elas sejam. Como minha discrição ou timidez me impedem de perguntar o nome das ditas cujas, acaba que tenho longos papos com completos desconhecidos.

Dias desses, estava revendo o álbum da minha formatura em jornalismo ocorrida no longínquo 1998, há quase 20 anos. Tomei um susto. Na foto que mostra toda a turma, alguns estranhos. Não que eu não me lembre do nome daquelas pessoas. Minha disfunção é bem pior: eu simplesmente não me lembro de um dia tê-las conhecido. Convivemos praticamente todo santo dia durante quatro anos e é como se elas nunca tivessem passado pela minha vida. O leitor já deve estar imaginando: esse cara não bate muito bem. Tendo a concordar.

Mas o episódio mais exemplar deste meu probleminha com rostos se deu ainda na infância, quando tinha 12 anos. Naquela época – explico para os mais jovens – tirar uma foto 3×4 levava algum tempo. A revelação não era imediata como hoje. Não me lembro por qual razão, precisei tirar tal foto.

Um dia depois, voltando da aula no Estadual, passo no Foto Aurélio e retiro minhas fotografias. Ao chegar em casa, observando-as, não gostei de minha aparência. Mostrei pra minha mãe, que ficou espantada. Pensei:”nossa, tô feio mesmo”. E minha mãe: Mas Lausamar, este não é você. ??? Como não?? Eu vi as fotos. Eram minhas.

Não eram. Eu tinha pegado as fotos de outro garoto. Parecido comigo, mas não era eu. E a vergonha de voltar no Foto para trocar. Constrangido, imaginando que o atendente por certo me imaginaria um talentoso aprendiz de imbecil, disse timidamente que havia pegado as fotos erradas. Uma senhorinha de cabelos brancos que estava ao meu lado viu as fotos e notou: “É meu netinho”. Os óculos dela eram melhores do que os meus olhos.

O pezinho

 

Sou muito esquecido. Perco bolsa, livros, celulares, chaves, o que tiver nas mãos, com a maior facilidade. E sou um esquecido que tem moto. E isso causa um problema.

Raramente, ao sair de moto, me lembro de levantar o suporte que a mantém de pé quando está estacionada, o popular pezinho. E sempre que faço isso, não ando cem metros sem que escute uma voz caridosa gritar _ Olha o pezinho, olha o pezinho!

Em algumas ocasiões estes gritos são quase que desesperados. Gente absolutamente desconhecida, tentando evitar que eu me esborrache logo à frente. Esta solidariedade genuína me comove. É gente verdadeiramente preocupada comigo, sem sequer saber quem sou. Por isso, digo que continuarei a ter fé na humanidade enquanto houver alguém a alertar este esquecido: _ Olha o pezinho, olha o pezinho!

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