Lausamar Humberto é advogado e jornalista. De 2007 a 2015 foi professor de jornalismo na UEMG. Como advogado, atua na área cível e trabalhista. É também poeta, tendo publicado em 2015 seu primeiro livro: “O Que Resta”. Contato: lausamar@yahoo.com.br ou www.facebook.com/lausamar

Jefferson Péres, falecido em 2008, foi senador por dois mandatos representando o Amazonas. Era um homem miúdo, bem magro, mas aguerrido e corajoso, e se tornou uma referência ética do Senado.

Na coluna de hoje, transcrevo parte de um discurso feito em 2006, quando já apontava graves desvios éticos do governo Lula e da fraqueza moral do Congresso. É a fala de um gigante da política, que se foi cedo demais.

“Gostaria de estar aqui discutindo a respeito das riquezas naturais do Brasil, e não como falarei, sobre algo muito pior: a dilapidação do capital ético deste País.

Poderíamos não ter um barril de petróleo nem um metro cúbico de gás, mas poderíamos ser uma das potências mundiais em termos de desenvolvimento.

O Japão não tem nada. Não tem petróleo, gás ou riquezas minerais. A Coréia do Sul também não tem nada disso, e nos dá um banho em termos de desenvolvimento não apenas econômico, mas também humano.

O que está faltando mesmo ao Brasil e sempre faltou é uma elite dirigente com compromisso com a coisa pública, capaz de fazer neste País o que precisaria ser feito: investimento em capital humano.

Estamos aqui no faz-de-conta. Como disse o Ministro Marco Aurélio, do STF,  este é o País do faz-de-conta. Como se ter animação em um país como este com um Presidente que, até poucos meses atrás, era sabidamente – como o é – um Presidente conivente com um dos piores escândalos de corrupção que já aconteceu no Brasil, e este Presidente está marchando para ser eleito, talvez, em primeiro turno? É desinformação da população? Não, não é.

Se fizermos uma enquete em qualquer lugar deste País, todos concordarão, ou a grande maioria, que o Presidente sabia de tudo. Então, votam nele sabendo que ele sabia. A crise ética não é só da classe política, não, parece que ela atinge grande parte da sociedade brasileira. Ele vai voltar porque o povo quer que ele volte. Democracia é isso. Curvo-me à vontade popular, mas inconformado.

Tenho quatro anos de Senado. Não me candidatarei em 2010 ( o senador faleceria em 2008), não quero mais viver a vida pública. Vou cumprir o mandato que o povo do Amazonas me deu, não vou silenciar. Curvo-me à vontade popular, mas não sem o sentimento de profunda indignação. A classe política, nem se fala, essa já apodreceu há muito tempo mesmo. Este Congresso que está aqui, desculpem-me a franqueza, é o pior de que já participei. É a pior legislatura da qual já participei. Nunca vi um Congresso tão medíocre. Claro, com uma minoria ilustre, respeitável, a quem cumprimento. Mas uma maioria, infelizmente, tão medíocre, com nível intelectual e moral tão baixo, eu nunca vi.

O que se pode esperar disso aí? Não sei. Eu não vou mais perder o meu tempo. Vou continuar protestando sempre, cumprindo o meu dever. Não teria justificativa dizer que não vou fazer mais nada. Vou cumprir rigorosamente o meu dever neste Senado até o último dia de mandato, mas para cá não quero mais voltar, não!

Um País que tem um Congresso deste, que tem uma classe política dessa, que tem um povo…Ddizem que político não deve falar mal do povo. Eu falo, eu falo. Parte da população compactua com isso. É lamentável! E que sabe. Não é por desinformação, não. E que não é só o povão, não. É parte da elite, inclusive intelectual. Compactuam com isso é porque são iguais, se não piores.

O meu desalento é profundo. Deixo isso registrado nos Anais do Senado Federal. Infelizmente, eu gostaria de estar fazendo outro tipo de pronunciamento, mas falo o que penso, perdendo ou não votos – pouco me importa. Aliás, eu não quero mais votos mesmo, pois estou encerrando a minha vida pública daqui a quatro anos, profundamente desencantado com ela.”

 

Meu caro senador Jefferson Péres, para a nossa agonia, este Congresso no qual conviveu ainda não era o pior da história. Ao contrário do que disse o filósofo Tiririca, pior do que tava, fica. Vossa Excelência dizia não saber no que daria um Congresso tão medíocre. Hoje, nós sabemos.

Que a democracia nos proteja.

 

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