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'Nativos digitais' não sabem buscar conhecimento na Internet, diz OCDE

Dois terços dos adolescentes brasileiros avaliados no Pisa não conseguem distinguir fato de opinião, segundo relatório da entidade

Por João Cerino em 01/06/2021 às 13:24:32

Getty Images

Dois ter√ßos dos adolescentes brasileiros avaliados no Pisa n√£o conseguem distinguir fato de opini√£o, segundo relatório da entidade, apontando que alfabetiza√ß√£o digital de jovens do mundo inteiro est√°, em média, estagnada desde 2000, com sérias implica√ß√Ķes para a educa√ß√£o e a cidadania. O aumento no acesso à tecnologia n√£o tem se traduzido, diretamente, em mais educa√ß√£o midi√°tica dos jovens. A familiaridade dos adolescentes atuais com a tecnologia, que faz deles nativos digitais, n√£o os torna automaticamente habilitados para compreender, distinguir e usar de modo eficiente o conhecimento dispon√≠vel na Internet.

Pelo contr√°rio, os dados sugerem que eles s√£o, em grande parte, incapazes de compreender nuances ou ambiguidades em textos online, localizar materiais confi√°veis em buscas de Internet ou em conte√ļdo de e-mails e redes sociais, avaliar a credibilidade de fontes de informa√ß√£o ou mesmo distinguir fatos de opini√Ķes. As conclus√Ķes foram apresentadas pela OCDE-Organiza√ß√£o para Coopera√ß√£o e Desenvolvimento Econômico em semin√°rio virtual no dia 26 de maio, com base no relatório Leitores do Século 21 - Desenvolvendo Habilidades de Alfabetiza√ß√£o em um Mundo Digital.

O relatório, divulgado no in√≠cio do m√™s, mostra as habilidades de interpreta√ß√£o de texto dos alunos de 15 anos avaliados no Pisa, exame internacional aplicado pela OCDE em 2018 em estudantes de 79 pa√≠ses ou territórios, inclusive no Brasil. Os dados s√£o preocupantes, pois, no Brasil, apenas um ter√ßo (33%) dos estudantes foi capaz de distinguir fatos de opini√Ķes em uma das perguntas aplicadas no Pisa.

Na média dos pa√≠ses da OCDE, esse √≠ndice era de 47%, o que mostra que, mesmo no grupo de pa√≠ses mais desenvolvidos, mais da metade dos estudantes de 15 anos n√£o demonstrou, em média, capacidade de fazer distin√ß√£o entre fato e opini√£o. Segundo o estudo, apenas metade dos estudantes em pa√≠ses da OCDE disseram ser ensinados na escola para reconhecer se a informa√ß√£o que est√£o lendo é enviesada e 40% dos alunos nesses pa√≠ses foram incapazes de reconhecer os perigos de se clicar em links de e-mails de phishing, por exemplo.

As habilidades de navega√ß√£o foram consideradas altamente eficientes para apenas 24% dos estudantes na média da OCDE e para apenas 15% dos estudantes no Brasil. As consequ√™ncias disso s√£o profundas para a inser√ß√£o no mundo do trabalho e para o exerc√≠cio da cidadania, uma vez que pessoas que n√£o sejam capazes de compreender textos plenamente estar√£o, em teoria, menos aptas para ocupar empregos de alta complexidade - e, ao mesmo tempo, ser√£o presas mais f√°ceis para o ambiente de desinforma√ß√£o que floresce na internet e nas redes sociais. "Ter nascido na era digital e ser um nativo digital n√£o significa que voc√™ vai ter habilidades digitais para usar a tecnologia de modo eficaz", afirmou no semin√°rio Andreas Schleicher, diretor de educa√ß√£o da OCDE.

Os resultados também mostram que, apesar de sua crescente familiaridade com a tecnologia, os jovens n√£o necessariamente aprendem instintivamente as habilidades necess√°rias para usar essa tecnologia para obter informa√ß√Ķes confi√°veis. De modo geral, o maior acesso a tecnologia entre os jovens nos √ļltimos anos n√£o se traduziu em mais educa√ß√£o midi√°tica, disse Schleicher no semin√°rio: os √≠ndices de alfabetiza√ß√£o digital dos jovens evolu√≠ram pouco nas avalia√ß√Ķes do Pisa feitas entre 2000 e 2018, apesar das enormes mudan√ßas sociais e digitais vividas pela comunidade global nesse intervalo de tempo.

Mais do que contato constante com a tecnologia, Schleicher defendeu que s√£o a "aprendizagem tradicional" e o engajamento de professores que far√£o a diferen√ßa em dar aos alunos a capacidade de entender diferentes perspectivas em um texto e serem capazes de identificar nuances e opini√Ķes. O relatório mostra que, em sistemas educacionais nos quais essas habilidades digitais s√£o ativamente ensinadas, estudantes pareceram mais capazes de distinguir fatos de opini√Ķes.

Mas Schleicher destacou que é um problema que ultrapassa os muros da escola e exaltou o trabalho de pa√≠ses que j√° t√™m uma cultura mais enraizada de leitura e alfabetiza√ß√£o, como Dinamarca, Finl√Ęndia, Estônia e Jap√£o. Ele ressalta, porém, que o tema exige muito mais estudos e discuss√Ķes na sociedade. "Ainda n√£o temos a resposta de por que alguns pa√≠ses se saem melhor" em alfabetiza√ß√£o digital, afirmou.

O que se sabe é que o educador tem um papel central nisso, à medida que mudam as habilidades exigidas dos estudantes: no século 20, esperava-se que um aluno obtivesse conhecimento de fontes pré-curadas, como enciclopédias.

Hoje, ele precisa aprender a distinguir o que é relevante entre milhares de resultados de uma busca no Google; precisa ser capazes de construir conhecimento e valid√°-lo, opina a OCDE. "Os educadores precisar√£o ser grandes mentores, mobilizadores e guias" nesse processo, afirmou Schleicher.

O poder persistente dos livros

Embora a leitura esteja mais fragmentada e migrando cada vez mais ao ambiente virtual, o relatório da OCDE mostra que o papel dos livros e de textos aprofundados continua sendo primordial. Os estudantes que disseram ler livros com mais frequ√™ncia em papel do que nos meios digitais tiveram melhores resultados em leitura em todos os pa√≠ses e territórios que participaram do Pisa 2018. Além disso, esses jovens também relataram ter mais prazer com a leitura.

Na mesma linha, a leitura de livros de fic√ß√£o e de textos longos também est√° positivamente associada a um melhor desempenho em leitura na maioria dos pa√≠ses avaliados. O problema é que quase a metade dos estudantes (49%) nos pa√≠ses da OCDE disseram, na pesquisa aplicada junto ao Pisa 2018, que só liam "se tivessem que ler". E cerca de um ter√ßo dos estudantes pesquisados disseram que raramente ou nunca lia livros.

Nesse contexto, o incentivo a leituras de profundidade, que permitam aos alunos treinar a observa√ß√£o de nuances no texto, é uma estratégia capaz de melhorar as habilidades de compreens√£o textual t√£o valiosas no século 21. É algo a que tanto professores quanto pais podem contribuir, diz a OCDE. Segundo o estudo, os estudantes que disseram ter pais que gostam de ler também apresentaram √≠ndices mais altos de prazer com a leitura.

Um ponto preocupante, disse Schleicher no semin√°rio, é um aumento crescente no "abismo cultural" entre estudantes de classes sociais mais avantajadas e os mais pobres. Enquanto entre os estudantes mais ricos o n√ļmero de livros em casa se manteve est√°vel entre 2000 e 2018, esse n√ļmero caiu consideravelmente entre os estudantes mais pobres. É um exemplo da import√Ęncia de se combaterem as desigualdades educacionais.

"Nos acostumamos a tolerar as desigualdades e a ver parte dos estudantes ficando para tr√°s", lamentou Schleicher.

Impactos da pandemia

Para o relatório da OCDE, a pandemia de Covid-19, que fez com que parte significativa do processo educacional migrasse para a internet, "aumentou a urg√™ncia de se lidar com esse tema da alfabetiza√ß√£o digital. Também aumentou o √≠mpeto entre crian√ßas, professores e formuladores de pol√≠ticas p√ļblicas para apoiar a forma√ß√£o de leitores do século 21".

"Para muitas crian√ßas em idade escolar e até mesmo professores, a desinforma√ß√£o nos tempos pré-pandemia talvez parecesse algo remoto, uma preocupa√ß√£o pol√≠tica de pouca relev√Ęncia no p√°tio da escola ou na sala de professores. Hoje, a infodemia (como especialistas se referem à prolifera√ß√£o de falsas informa√ß√Ķes em grandes volumes, como ocorre em tempos de Covid-19) e a incerteza sobre fatos cient√≠ficos e de sa√ļde b√°sicos capturou o foco dos alunos de 15 anos - e seu anseio por solu√ß√Ķes", prossegue o relatório da OCDE.

"Alfabetiza√ß√£o no século 21 significa parar e olhar para os lados antes de seguir adiante online. Significa checar os fatos antes de basear suas opini√Ķes nele. Significa fazer perguntas sobre as fontes de informa√ß√£o. Quem escreveu isto? Quem fez este v√≠deo? É de uma fonte confi√°vel? Ele faz sentido? Quais s√£o os meus vieses? Tudo isso cabe ao curr√≠culo escolar e ao treinamento de professores. E tudo isso tem implica√ß√Ķes que v√£o muito além de detectar not√≠cias falsas e desinforma√ß√£o: assegurar o ato de tomada de decis√Ķes bem informadas e assegurar a base de democracias funcionais."

Fonte: G1

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