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Redes buscam caminhos para a tecnologia nas escolas

Computadores, laptops, celulares, tablets e inteligência artificial são termos que estão cada vez mais no cotidiano

Por João Cerino em 04/09/2023 às 08:45:25

"Passados 30 anos, continuamos tateando, porque as tecnologias evolu√≠ram, evoluem e nós profissionais da educação continuamos tateando, sem encontrar um norte, do ponto de vista pedagógico, que oriente novas pr√°ticas", acrescenta. Ele explica que novas tecnologias trazem uma nova cultura que demanda uma mudança na forma de ensinar, para que elas sejam melhor aproveitadas. "Isso não é um problema só brasileiro, é mundial. Não encontramos fórmulas pedagógicas inovadoras para darem conta da tecnologia e darem conta da cultura que elas trazem".
Somado aos desafios pedagógicos, h√° os desafios de infraestrutura e de acesso. No final de 2022, de acordo com a Ag√™ncia Nacional de Telecomunicações-Anatel, 3,4 mil escolas no Pa√≠s, 2,5% do total de escolas, não tinham acesso sequer a rede de energia elétrica, com 9,5 mil, ou 6,8% sem acesso à Internet e 46,1 mil, o equivalente a 33,2%, sem laboratórios de inform√°tica. Os n√ļmeros foram disponibilizados no Painel Conectividade nas Escolas, dispon√≠vel no Portal da Ag√™ncia.
O caminho, para os estudantes que estão assistindo as aulas, é incorporar a tecnologia à educação, mas garantir que isso venha junto com o acesso universal. "Hoje é imposs√≠vel fazer qualquer coisa sem acesso à Internet", diz a presidenta da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas-Ubes, Jade Beatriz e acrescenta: "A gente vive falando que a educação é a mesma de cinquenta anos atr√°s e que precisa se transformar para os estudantes terem vontade de ir para a escola e aprender, que não seja só ir para a escola, sentar na cadeira, assistir o professor falando e ir embora. A gente acredita que a tecnologia é indispens√°vel para que isso aconteça, mas isso deve ser feito com responsabilidade".
No in√≠cio deste ano, foi sancionada a Lei 14.533/2023, que institui a Pol√≠tica Nacional de Educação Digital-Pned). A intenção é garantir o acesso, sobretudo das populações mais vulner√°veis, a recursos, ferramentas e pr√°ticas digitais. A Pned vai articular os programas, projetos e ações de munic√≠pios, estados, Distrito Federal e União, de diferentes √°reas e setores governamentais, para potencializar e melhorar os resultados dessas pol√≠ticas p√ļblicas. A Pned tem quatro eixos de atuação, cada um com ações espec√≠ficas: a inclusão digital, a educação digital escolar, a capacitação e especialização digital e a pesquisa e desenvolvimento em tecnologias da informação e comunicação.
Entre as ações previstas estão o treinamento de compet√™ncias digitais, midi√°ticas e informacionais e a conscientização a respeito dos direitos sobre o uso e o tratamento de dados pessoais. Est√° prevista também a promoção da conectividade segura e da proteção dos dados da população mais vulner√°vel, em especial de crianças e adolescentes.
Segundo os entrevistados, nem no Brasil, nem no mundo, h√° um caminho √ļnico. Assim, as redes de ensino t√™m tomado diferentes medidas para incorporar ou mesmo restringir a tecnologia nas escolas.
LIVROS
Em São Paulo, no final de julho, o governador Tarc√≠sio de Freitas, anunciou que não iria aderir ao Programa Nacional do Livro Did√°tico, do Ministério da Educação e que os alunos da rede estadual, a partir do 6¬ļ ano do Ensino Fundamental, teriam apenas livros digitais a partir de 2024. A medida gerou cr√≠ticas e discussões. O Tribunal de Justiça de São Paulo chegou a determinar que o governo estadual incorpore o PNLD.
O estudante do 2¬ļ ano do Ensino Médio da Escola Estadual Odila Leite dos Santos em Itaquaquecetuba-SP e diretor da União Paulista dos Estudantes Secundaristas, Wendell de Paiva, diz que é a favor do uso de tecnologia, mas que isso deve ser feito com o devido cuidado e observando as v√°rias desigualdades nas redes de ensino. "Tem escolas que t√™m matéria de tecnologia e tem computadores que não funcionam, que não tem acesso à computadores de qualidade, não t√™m wi-fi de qualidade ou às vezes não tem nem wi-fi".
Ele conta que na própria escola, h√° dificuldades para acessar a Internet. "A minha escola tem dificuldade na questão do wi-fi. Ela fica na periferia e temos dificuldades com o acesso. O dispositivo não conecta no celular de todos os alunos e sofremos com computadores que não funcionam. Quando precisamos fazer uma atividade, responde a prova no computador, não tem para todo mundo, é bem dif√≠cil".
Em meados de agosto, o governo voltou atr√°s e informou a adesão ao PNLD, que é o programa nacional voltado para compra e distribuição de livros did√°ticos para escolas p√ļblica, mas sem abrir mão da produção própria. Os alunos terão à disposição tanto o material baseado no Curr√≠culo Paulista - que terão versão impressa - quanto os livros did√°ticos fornecidos pelo MEC. "A nossa principal meta é oferecer aos alunos um ambiente educacional inovador, com ferramentas e insumos pedagógicos que garantam um processo de aprendizagem mais completo e formem cidadãos preparados para o mundo e com condições de buscarem posições competitivas no mercado de trabalho", diz em nota a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.
PARANÁ
No Paran√°, o uso das plataformas na educação começou de forma mais intensa na pandemia, no governo de Ratinho J√ļnior, quando o então secret√°rio Renato Feder, estava à frente da pasta da Educação. Feder agora é o atual secret√°rio de Educação de São Paulo. A presidente do Sindicato dos Professores e Funcion√°rios de Escola do Paran√°-APP-Sindicato, Walkiria Mazeto, diz que as plataformas digitais começaram a ser usadas tanto nos registros b√°sicos como lista de chamada e lançamento de notas dos alunos, quanto para acessar conte√ļdos contratados e aplicativos.
O uso foi, segundo Mazeto, intensificado mesmo com o retorno das aulas presenciais. As escolas passaram a ter metas para cumprir nessas plataformas, que deixaram de ser um apoio e passaram a ser em si uma porcentagem das aulas e dos conte√ļdos dados nas escolas. "Todos os app t√™m meta para a escola. Tem quizz [testes], plataforma de exerc√≠cios, curso de ingl√™s online, tem l√≠ngua portuguesa, leitura, redação. Estamos com sete plataformas de interação obrigatória e todas elas t√™m meta e alguém que vigia a meta", diz Mazeto.
A APP-Sindicato realizou de forma pioneira no estado a pesquisa Plataformização da Educação com o Instituto Pesquisas de Opinião-IPO para medir os impactos do uso das plataformas para os educadores do estado. Os dados divulgados mostram que quase a maioria, 91,3%, declaram estar sobrecarregados com a avalanche de novas plataformas, aplicativos e meios tecnológicos somados à cobrança pelo cumprimento de metas. Tr√™s a cada quatro, 74,3%, reconhecem impactos negativos do modelo na sua sa√ļde f√≠sica e/ou mental, enquanto uma parcela maior, 78,3% afirma ter colegas que adoeceram em decorr√™ncia das dificuldades impostas pelas novas tecnologias.
Nas disciplinas em que as plataformas foram inclu√≠das, Mazeto diz que os professores relatam que não t√™m autonomia para dar aulas, mesmo tendo formação adequada para tal. "Isso gera frustração, uma sensação de perda de autonomia pedagógica", diz.
A pesquisa mostra ainda que 90% dos respondentes concordam que as plataformas deveriam ser de uso opcional nas escolas, servindo como instrumentos de apoio pedagógico e não de uso obrigatório. "Uma coisa é ter um app ou disponibilizar à escola professores e estudantes a possibilidade de complementar, de usar na aula, de dispor disso como recurso did√°tico e outra é forma como est√° posta. Uma obrigatoriedade. Organiza-se a escola hoje a partir das plataformas", diz Mazeto.
Para os estudantes, o uso das plataformas não melhorou o ensino, de acordo com a diretora de relações institucionais da União Paranaense dos Estudantes Secundaristas-Upes, Ana Ponce, que é estudante do 2¬ļ ano do Colégio estadual Lysimaco Ferreira da Costa, em Curitiba. "A gente v√™ a importância de usar a tecnologia na sala de aula porque o mundo roda em volta da tecnologia e ter um celular ou não define muita coisa na sua vida, infelizmente. Mas, no Paran√° tem escola que não tem estrutura nenhuma para suportar o uso da tecnologia, tem aluno que não tem suporte nenhum fora da escola para usar tablet, laptop ou não tem Internet", diz a estudante.
Ela conta também que, nas plataformas, os estudantes resolvem testes, os chamados quizzes, que são de m√ļltipla escolha e permitem v√°rias tentativas. "Voc√™ pode escolher quantas vezes quiser, não tem como errar, o professor não v√™ seu desempenho real, voc√™ vai sempre acertar", diz. Como estudante do Ensino Médio, ela se preocupa com a formação que est√° tendo, que não considera suficiente para que ela ingresse em uma universidade pelo Exame Nacional do Ensino Médio-Enem, por exemplo.
Os professores compartilham dessa preocupação. A pesquisa conduzida pelo APP-Sindicato e Instituto IPO mostra que apenas 16,9% dos professores afirmam que as plataformas tecnológicas utilizadas em sala de aula melhoraram a aprendizagem dos estudantes. Para 40,3%, a aprendizagem piorou e 42,7% dizem que os resultados não foram positivos nem negativos. A Ag√™ncia Brasil entrou em contato com a Secretaria de Educação do Paran√°, mas não recebeu um posicionamento até a publicação da matéria.
RESTRIÇÃO
Na contramão dos dois estados, o munic√≠pio do Rio de Janeiro busca formas de evitar o uso excessivo de celular na sala de aula. A prefeitura da capital publicou um decreto que regulamenta o uso dos aparelhos nas escolas p√ļblicas. Agora, o celular dever√° ficar guardado e só poder√° ser usado para atividades pedagógicas, com a autorização dos professores. O decreto soma-se a lei estadual que também pro√≠be o uso de aparelhos eletrônicos quando não autorizados por professores.
Os professores podem autorizar os estudantes a usarem o celular para pesquisas, leituras, ou mesmo acesso ao material Rioeduca, oferecido pela prefeitura ou outro conte√ļdo ou serviço. Quando permitido, o aluno dever√° utilizar os aparelhos de forma silenciosa e de acordo com as orientações do professor. Também est√° autorizado o uso dos celulares para os alunos com defici√™ncia ou com problemas de sa√ļde que necessitam destes dispositivos para monitoramento ou algum tipo de aux√≠lio.
A medida, de acordo com a Prefeitura do Rio, é baseada no Relatório de Monitoramento Global da Educação 2023: a Tecnologia na Educação: uma Ferramenta a Serviço de Quem? da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ci√™ncia e a Cultura-Unesco, que mostrou que o tempo prolongado de exposição à tela pode afetar de forma negativa o autocontrole e a estabilidade emocional, aumentando a ansiedade e a depressão. Além disso, o relatório diz que os governos "precisam garantir as condições certas para permitir o acesso igualit√°rio à educação para todos, regulamentar o uso da tecnologia de modo a proteger os estudantes de suas influ√™ncias negativas e preparar os professores".
O secret√°rio de Educação do Rio, Renan Ferreirinha, aponta que é necess√°rio ter novas regras para a nova realidade. Hoje, h√° um uso excessivo dos smartphones e vivemos uma epidemia de distrações. É necess√°rio educar e apoiar as crianças para esse novo tempo. Nesse sentido, regras são fundamentais. Ficar demais no celular é comprovadamente prejudicial e essa nossa medida busca educar os h√°bitos, com um uso mais consciente e respons√°vel da tecnologia", afirmou na ocasião.
CONV√ćVIO
Desde que foi divulgado, em julho, o relatório da Unesco tem sido citado nas discussões sobre o uso de tecnologia nas escolas. "O relatório traz tanto o lado positivo da tecnologia em sala de aula, como traz algumas preocupações com relação a essa questão da tecnologia. Quando traz essa questão do lado mais negativo da tecnologia, ele aponta que, quando é utilizada em excesso e para fins não pedagógicos, pode realmente atrapalhar os estudantes no aprendizado. Mas, isso se tiver um uso excessivo e se tiver uso em sala de aula que não seja pedagógico. Por isso é importante a tecnologia ser apropriada pelo setor educacional no sentido pedagógico e se beneficiar", diz a coordenadora da √°rea de Educação da Unesco no Brasil, Rebeca Otero.
Ela aponta que alguns dos benef√≠cios trazidos pelas tecnologias são mais informações e promoção de grupos de discussão, entre outros. Ela ressalta, no entanto, que esses equipamentos não substituem os professores ou o conv√≠vio social. "A tecnologia não substitui nem o professor, nem o ambiente social da escola. Não substitui outras tecnologias existentes na educação como a leitura de um livro. Claro que se pode ler um livro digital, mas é importante ter o h√°bito da leitura entre os estudantes, da leitura mais consistente e mais profunda que não seja uma leitura r√°pida de manchete de redes sociais ou algo assim. Importante manter esses aspectos da educação que sabemos que são muito bons e funcionam e complement√°-los com tecnologia de forma apropriada, trazendo o m√°ximo poss√≠vel de uso pedagógico dessa tecnologia", diz.
O relatório também mostra que a desigualdade no acesso à tecnologia não é exclusiva no Brasil. Em todo o mundo, apenas 40% das escolas prim√°rias, 50% das escolas de primeiro n√≠vel da educação secund√°ria e 65% das escolas de segundo n√≠vel da educação secund√°ria, ou seja, de Ensino Médio, estão conectadas à Internet e 85% dos pa√≠ses t√™m leis ou pol√≠ticas para melhorar a conectividade nas escolas ou entre os estudantes.
Segundo Otero, não h√° uma resposta pronta sobre como é o uso ideal de tecnologia nas salas de aula, cada pa√≠s est√° buscando soluções que mais se alinham com as próprias realidades. "Alguns estão indo para o lado de limitar um pouco a tecnologia e outros de serem mais abertos. Acho que cada pa√≠s tem que olhar suas particularidades. O Brasil é um pa√≠s que tem uma formação muito desigual", diz. "Então, temos que trazer a tecnologia mais como aliada".

Fonte: Agência Brasil

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